Especial METAL RO 15 anos – Parte 2

Em 2004 para promover as bandas da cidade, o vocalista da Oblivion abriu um espaço em sua casa que era uma padaria desativada (Avenida Amazonas próximo ao Lanches 15 da Avenida Rio Madeira). Esses eventos ficaram batizados de “Padaria do Metal”, que ocorria ao menos uma vez por mês nesse espaço.

O que começou apenas como uma espécie de ensaio aberto da banda Oblivion para reunir alguns amigos e dos operadores do #Metal_RO, passou a ter grandes proporções e chegou a ter mais de 100 pessoas, tornando-se verdadeiros shows com muita empolgação pelo público presente. Isso foi muito importante para as bandas novas serem conhecidas.

As banda Inquisition (Heavy/Thrash) e Whiplash (Thrash Metal) estrearam na padaria. Os remanescentes da Inquisition formaram a Hellfire Club (Hard/Heavy) e os da Whiplash a banda Incinerador (Death Metal).

Na edição de 2004 o Madeira Festival continuou usando o mesmo critério de seleção, mas essa edição não seria mais no estacionamento do Bingol Club. De olho no crescimento do público roqueiro de Porto Velho, passaram a usar o Parque de Exposições de Porto Velho, que poderia comportar mais de 20 mil pessoas por dia. Contando com uma mega estrutura, dois palcos, camarotes e espaço para música eletrônica numa tenda que fiz questão de passar longe, tanto que tiraram o “rock” do nome do festival.

Banda INCINERADOR em sua formação original.(Foto: DivulgacaoUnderground)
Banda INCINERADOR em sua formação original.(Foto: DivulgacaoUnderground)

A partir de então Porto Velho vivia as suas modas de acordo com o evento: durante a Expovel as pessoas se travestiam de cowboys e cowgirls, durante a Micareta todo mundo era folião e no Madeira Festival todos eram roqueiros. Haviam pessoas que frequentavam os 3 eventos e seguiam a manada (não apenas na Expovel).

Nessa época o rock estava tão em voga na cidade que durante a Expovel tinha a “Terça do Rock”, contando sempre com atrações locais no mesmo local que ocorriam os shows de artistas sertanejos. Como a entrada era gratuita ou custava apenas 2 ou 3 reais, sempre contava com um grande público.

Voltando ao Madeira Festival, o Metal teve um pouco mais de espaço em relação ao ano anterior, mas ainda sem ter muito destaque. Tocaram as bandas Sortilégio, Dogma e Oblivion. O METAL RO, que na ocasião já era um nome consolidado na cena, confeccionou uma camiseta exclusiva para o Festival, ainda com os nicknames nas costas, bem como os logos das bandas que contavam com o nosso apoio. Foi inaugurado a nossa primeira página (www.metalro.tk). Basicamente usávamos para armazenar as fotos dos eventos que ocorriam na cidade.

A banda Oblivion foi escalada para tocar às 16h da tarde, a segunda banda do segundo dia de Festival. Geralmente as primeiras bandas tocam para pouquíssimo público. No entanto, via-se um mar de camisetas pretas gritando a plenos pulmões o nome da banda e cantando várias músicas do repertório junto. Como dizem no linguajar de hoje: esse dia foi louco! Mas foi do caralho mesmo (que é atemporal).

A Dogma e a Sortilégio tocaram à noite para um grande público também. Destaque para a Sortilégio com seu Black Metal autoral contando com a cobertura direta da MTV nacional, houve uma grande repercussão essa apresentação, colocando a banda em outro patamar à época.

Formação clássica da OBLIVION. (Foto: PalcoPrincipal)
Formação clássica da OBLIVION. (Foto: PalcoPrincipal)

Veja bem, o Metal era apenas algo que exista na Oficina do Rock e então passou a ter mais bandas, mais público, mais ofertas de discos à venda nas lojas de discos, muitíssimas vendas de camisetas de bandas, então era um estilo em plena ascensão na cidade. Isso incomodava a organização que era obrigada a escalar as bandas de Metal no Festival, mas por ser uma vitrine, preferia colocar os seus amiguinhos nos melhores horários para se apresentarem.

Em 2004 houve um evento chamado Metal Guide, que era para ser a estreia de um portal dos estudantes de informática da UNIR, no entanto, a organização foi feita em parceira entre o METAL RO, alguns membros da Cogumelo Nuclear e da banda Awake.

Inicialmente o evento estava previsto no Clube da Vila da Eletronorte, estava tudo acertado até umas 48h do evento ocorrer, no entanto, o administrador da Vila, sabendo que a festa seria compostas por bandas de Metal, destilou todo o seu preconceito cancelando o agendamento.

Com muitos ingressos já vendidos, arranjo de patrocínio, divulgação na rádio, naquele momento não era possível cancelar tudo. Então corremos para o Heavy Ney um dia antes do evento, mas na ocasião a Oficina dele estava de mudança, com várias peças espalhadas e daquela forma não seria possível realizar qualquer show ali sem tirar as coisas de lá. Então ele propôs que fôssemos de manhã cedo carregar a coisas para o caminhão de mudança, descarregar para poder abrir espaço para o show.

Obviamente aceitamos. Estávamos às 8h da manhã carregando tudo por lá e até o final da manhã estava tudo “limpo”, dando espaço para a instalação do equipamento de som na parte da tarde e passagem de som da bandas. Tem coisas que a idade ajuda bastante, pois não sei de onde tiramos tanta energia e disposição para trabalhar tanto.

Apesar de todos os percalços o evento foi um sucesso de público e organização, pois com a retirada das peças conseguimos mais espaço e fizemos uma decoração legal. Pena não dispor de fotos dessa noite que provavelmente se perdeu entre HD’s de PC’s antigos ou gravados em algum CD que já se deteriorou.

Programa “Rock Rondônia” no YouTube com a INCINERADOR.

No final de 2004 já sem espaço para armazenar as fotos dos eventos no site gratuito que usávamos, decidimos criar o nosso próprio domínio com um servidor que comportasse algo maior. Nós criamos o portal METALRO.COM, com espaço de usuários, interação através de fórum, notícias, entrevistas etc.

O ano de 2005 foi o maior da história do metal de Porto Velho. Digo isso porque as bandas passaram a compor e gravar material próprio. Tanto a Sortilégio, Oblivion, Dogma, Bedroyt (dispensa apresentações), Hellfire Club e Nephtis (banda de Power Metal surgida de ex-integrantes da Lorien e uma nova geração de músicos), gravaram músicas para a seleção do Madeira Festival de 2005. O melhor de tudo é que era o momento que o público mais interagia nos shows das bandas, mais até do que a execução de alguns covers bem conhecidos. Essa época ficará marcada como na memória de quem vivenciou tudo isso como a era de ouro do Metal em Rondônia, mais adiante explicarei o porquê.

O Madeira Festival de 2005 contou com uma batalha de bandas para aquelas que não haviam conseguido passar pela primeira seleção para promover a nova sede do Urublues (Brasília, sub esquina com Dom Pedro II). A disputa era simples, as bandas se apresentavam e no final o público escolhia quem havia sido o melhor show e esta passaria para fase seguinte.

A banda Hellfire Club que anteriormente se chamava Inquisition até a saída do antigo vocalista, gravou a sua primeira composição: “Soldiers and War Machines”. No entanto, por nunca ter feito um show com esse nome e com essa formação, não foi selecionada pela organização para participar do Festival.

Contrariados por não terem sido escolhidos, eu (que fui baixista da banda) e o Henrique (guitarrista), sabendo da disputa de bandas, corremos até o Urublues para nos inscrevermos, mas além de já ter ocorrido uma no final de semana anterior, já estava fechada as bandas para o dia seguinte e não havia como participarmos dessa disputa.

Insistimos com o encarregado do Urublues e mostramos o nosso som. Para a nossa sorte, o Dênis, baixista da Nitro (banda de pop rock da época no Estado) e membro da organização do Festival, vendo a nossa apreensão e por ter visto alguma qualidade na nossa música, falou que participaríamos desde que fôssemos a primeira banda da noite, na certeza de que não teríamos chances mesmo.

A apresentação seria no domingo e essa conversa foi na sexta à tarde, no entanto, não conseguimos conversar a tempo com o nosso baterista na época, Esmael (também baterista da Awake). Que havia ido para um sítio pensando que não tínhamos conseguido êxito para participar da batalha.

Portal METAL RO em 2006. Na época ainda usávamos ".com". (Créditos: Web Archives)
Portal METAL RO em 2006. Na época ainda usávamos “.com”. (Créditos: Web Archives)

Tivemos a idéia insana de procurar outro músico em última hora. Liguei para o Rick, o nosso baterista anterior e ele estava com malária. Então fomos direto para a casa do Leandro (Neném), baterista da Dogma, pois seu estilo de tocar se encaixava com o nosso. Ele havia terminado a pouco de ensaiar com a banda e conversamos para ele explicando tudo. Escolhemos um repertório que ele poderia se apresentar, mas disse que seria impossível tocar “Soldiers…”. A batalha de bandas seria no dia seguinte e teríamos que nos apresentar às 18h. Às 8h da manhã de domingo estávamos ensaiando com ele e ficamos assim pela manhã inteira até as músicas ficarem razoavelmente ensaiadas. O Hugo, que era vocalista da Dogma e depois entrou na Hellfire Club, participou do ensaio e nos ajudou bastante.

Chamamos nossos brothers de Metal RO (brothers of metal! Leia isso sem pensar no refrão do Manowar) e outros vários amigos para nos dar apoio. Mas como fomos a primeira banda, todo mundo tinha que ficar até a última banda e era proibido sair de dentro do Urublues, a não ser que pagasse um novo ingresso.

Dentro de tudo que estávamos vivendo, demos o nosso sangue nesse show, que era o primeiro oficialmente como Hellfire Club. Lembro que foi um show muito bom dentro das circunstâncias que havíamos passado, com o Leandro errando minimamente nessa apresentação. O momento emocionante foi quando o Hugo subiu ao palco para cantar uma música e disse que estava emocionado a dividir o palco comigo e com Henrique, pois começamos a ouvir Metal juntos. Ao final, nosso público era muito maior e barulhento, e nos classificamos para a final no domingo seguinte, que era uma semana antes do Madeira Festival.

Uma das formações da HELLFIRE CLUB em 2007. (Foto: fotolog.com/beradeiros)
Uma das formações da HELLFIRE CLUB em 2006. (Foto: fotolog.com/beradeiros)

No domingo seguinte levamos muito mais gente e passamos a semana ensaiando com o Esmael, ainda assim fomos escalados como a primeira banda pelo o pessoal da organização. Fizemos um repertório mais extenso, chamamos muito mais gente para nos assistirem, graças ao efeito “Soldiers and War Machines” que estava viralizando entre a galera, e se comprovou durante a execução da música com todos cantando o refrão em uníssono. Nesse dia me senti tocando numa grande banda.

A banda adversária era a T.R.A.P. (toca o rock aí, porra!), que era uma banda de rock legal, os músicos tocavam bem e também tinham um público próprio, no entanto, o Beto, guitarrista da Nitro, subiu ao palco para fazer backing vocal em uma das músicas e ao final dela perguntou: “Quem é T.R.A.P. aqui levanta a mão!” Sendo bastante ovacionado pelo público presente, isso ferveu o meu sangue porque a organização estava sendo claramente parcial à favor da outra banda e o clima de marmelada estava no ar.

Quando eles terminaram, Beto e o Dênis subiram ao palco para saber do público qual era a banda que ganharia o direito de participar do Madeira Festival. O público deles era ligeiramente maior (talvez umas 10 pessoas a mais, no máximo). Ficamos à direita do palco e eles à esquerda, nunca gritei tanto na minha vida e, mesmo com menos gente éramos muito mais barulhentos, me senti no meio de um bando Viking invadindo o território inimigo, trazendo para os dias atuais, como os Selvagens comandados pelo Jon Snow atacando o exército do Bolton do épico 9º episódio da 6ª temporada de Game Of Thrones. Vencemos a batalha de bandas e a Hellfire Club ganhou o direito de participar do Madeira Festival de 2005 a contragosto da organização.

A edição de 2005 foi a que contou com o maior número de bandas, dentre elas foram de Porto Velho: Oblivion, Sortilégio, Dogma, Hellfire Club, Bedroyt e Coveiros (Crossover). De Rio Branco: Dream Healer e Calvarium (clique aqui para ver a programação do Festival na época). Para sacanear tudo de uma vez, tiveram a idéia de criar um espaço universitário na FARO, que nada mais era um curral usado durante a Expovel adaptado para as bandas. Ali foram escaladas para a “noite do metal” na sexta feira em um espaço apertado, pois não comportava mais de 150 pessoas, quente, com o teto baixo, sem estrutura mínima para as bandas Oblivion, Sortilégio, Coveiros, Dream Healer e Calvarium.

Além disso, os outros palcos não paravam a apresentação durante os shows de outras bandas, ou seja, segregaram completamente as bandas e os públicos, pois na cabeça de quem teve essa ideia (se é que isso pode ser considerado uma), quem curte Metal, não houve outras coisas e vice e versa. Foi a atitude mais preconceituosa que vivenciei com o Metal na minha vida, pois todos nós ficamos revoltados diante da total falta de respeito para com o público e banda. Resultado, o local ficou abarrotado e super lotado, já que era muito apertado. Só para se ter uma ideia, o show da Dogma e da Bedroyt que foram nos melhores horários e um dos palcos principais, tiveram um enorme público que não teria condições de entrar no chiqueiro que foi disponibilizado para as outras bandas.

Foi um fiasco total e o METAL RO fez uma manifestação de repúdio em seu portal e na comunidade do Madeira no Orkut, gerando muitas discussões entre as partes envolvidas. Foi um episódio triste, pois era a terceira edição do Festival e mesmo assim alguns membros da organização faziam questão de esconder de que existia Heavy Metal na cidade, talvez por medo de que seus projetos musicais fossem ofuscados pelo emergente estilo musical.

Clique aqui para ler a primeira parte dessa série: 2001-2003 – A Nova Onda Do Heavy Metal De Rondônia.

Esse série não acabou! Em breve, a continuação…

5 comentários

  1. Época boa… muito bom relembrar. Até hoje ainda tenho umas MP3 de algumas das bandas que se apresentaram na época…

    Parabéns pelo artigo. Show!!!!

  2. Muito bom saber como tudo aconteceu! parabéns pelo artigo

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