Especial METAL RO 15 anos – Parte 1

Dando continuidade ao retorno do portal, nós contaremos o que ocorreu na cena nos últimos 15 anos sob a nossa perspectiva pessoal, muito longe de exaurir o assunto, pois não se trata de uma matéria de cunho jornalístico que, além de não sermos profissionais da área, esmiuçar uma “história completa” demandaria entrevistas com as partes envolvidas.

Sendo assim, escolhemos o recorte sob a perspectiva do METAL RO, ou seja, a partir dos membros envolvidos do MOVIMENTO, que contarão apenas com a memória desse tempo decorrido para contar a história, o que pode incorrer em pequenas distorções, que podem ser devidamente corrigidas se requisitadas e avaliadas.

Tomamos a liberdade de mencionar o nome das bandas do período, bem como os estilos, mas não pretendemos entrar em polêmicas a partir de fofocas e tretas envolvidas, pois não é essa a intenção do artigo, mas apenas descrever resumidamente o desenvolvimento do movimento junto das bandas com seus altos e baixos.

Como disse acima, já que a história será sob a nossa perspectiva, temos que começar pelo surgimento do próprio METAL RO.

Em 2001 a cena roqueira em Porto Velho estava um verdadeiro turbilhão, surgiam às pencas bandinhas na escola, muitas delas influenciadas pelo New Metal em seu auge e pelo grunge, que aparentemente levou 10 anos para chegar a Porto Velho.

A lenda "Heavy Ney" Miranda, falecido em abril de 2016, foi um dos precursores do Rock e Heavy Metal em Rondônia. "Paz e amor, galera". (Foto: Rondoniagora)
A lenda “Heavy Ney” Miranda, falecido em abril de 2016, foi um dos precursores do Rock e Heavy Metal em Rondônia. “Paz e amor, galera”. (Foto: Rondoniagora)

Haviam alguns lugares que davam espaço para se apresentarem, dentre eles os principais eram o Urublues, o Território do Rock e a Oficina do Rock.

No entanto, tanto o Urublues (que vivia abrindo e fechando), como o Território do Rock, davam mais espaço ao rock mais mainstream, ficando o rock mais underground e marginal, restrito à Oficina do Rock, pertencente ao saudoso Heavy Ney.

Era difícil até mesmo formar uma banda, pois a garotada estava interessada em tocar Papa Roach, Korn, System Of A Down entre outros do gênero. Por incrível que pareça era complicado juntar 5 adolescentes dispostos a tocar alguns covers de Iron Maiden e Metallica, mais difícil ainda era arrumar com competência para tal. Eu me incluo nessa, pois não havia Youtube para dar aquela “mãozinha”, entre outras ferramentas, então tínhamos que aprender “na raça”, e leva tempo e dedicação aprimorar o ouvido a tirar o som do baixo para executar as músicas. E haja calos nos dedos!

Então, ficava tudo concentrado no Heavy Ney, como nos referíamos à “oficina” na época. As bandas dedicadas apenas ao “metal”, se não me falha a memória eram: Sortilégio (Black Metal), Metáfora (Doom Metal) e La Marca (Metal Tradicional), continham apresentações regulares na Oficina do Rock, embora, muitas vezes disputando o espaço com bandas Punk e Hardcore. O que gerava, não raramente, brigas e confusões entre os adeptos de cada estilo.

Mas anterior ao METAL RO, existia a Cogumelo Nuclear, importante coletivo justamente para agregar as bandas de Metal num único evento afim de fomentar a cena local.

No primeiro semestre de 2001, a Cogumelo promoveu a “Night Of Metal Warrior”, que contou com, além das bandas acima mencionadas, também com bandas de Rio Branco-AC, sendo elas Dream Healer (Power Metal) e Silver Cry (Power Metal). Foi uma noite histórica e na Oficina do Rock estava saindo gente pelo ladrão, com a apresentação da Sortilégio que fechou a noite executando várias composições vpróprias, cheias de pirotecnia e muita gente batendo cabeça durante o show.

SORTILÉGIO se apresentando no “Fábrica do Rock” em Rio Branco em 2001.

Observando que existia Heavy Metal na cidade, eu como bom usuário do IRC me sentia deslocado por não me sentir representado do estilo que estava aficionado a ouvir com toda aquela empolgação que a adolescência nos proporciona, guardava dinheiro para comprar CD’s e consumia todas as revistas que encontrava do estilo, principalmente a Roadie Crew, que já estava anos luzes à frente da mais antiga e tradicional Rock Brigade.

Tela do programa mIRC, usado para se conectar ao "IRC" e conversar na época. (Foto: Snapfiles.com)
Tela do programa mIRC, usado para se conectar ao “IRC” e conversar na época. (Foto: Snapfiles.com)

Com base em canais do IRC sobre Metal existente em outras cidades, resolvi criar o #Metal_RO, junto com os outros dois grandes amigos, o casal Andrei e Maíra que toparam a ideia e ficamos por várias semanas sozinhos no canal.

Divulgar a existência do canal era uma tarefa árdua, porque o principal era o #Rondonia, mas éramos banidos caso fizéssemos propaganda do #Metal_RO naquele espaço, mas burlávamos o sistema retirando o # e causando flood, que gerava apenas uma advertência pelo “kick”, que causava a saída e retorno automático ao canal.

Então era um trabalho de formiga, primeiro passamos a convencer aos amigos a entrarem e permanecerem num canal com pouquíssima gente, pois a maioria das pessoas entravam ali para paquerar. O segundo passo foi procurar os nicknames dedicados a algum artista ou membros de banda ou nomes de músicas, abordar a pessoa no chat privado, fazer amizade e então convencê-la a entrar no canal. Então levaram meses para ter em torno de 15 pessoas regulares frequentando o canal.

A partir daí, houve uma aproximação entre a Cogumelo, cujos alguns membros passaram também a frequentar o canal, que promovia os eventos voltados ao Metal e o iniciado #Metal_RO no IRC, que divulgava no canal e a população carente de Heavy Metal, como dizíamos na época, passou a frequentar com mais entusiamo a Oficina do Rock sem ter que esperar horas de bandas punks e HC com suas intermináveis apresentações, pois as bandas de metal sempre ficavam por último.

No final de 2001 para o ano de 2002 surge uma nova geração de bandas na cidade, oriunda da semente plantada por adolescentes entusiasmados com o Metal e que estava finalmente possuindo alguma habilidade e estabilidade em suas formações para executar as músicas de seus artistas favoritos.

Surge a Awake, banda de Prog Metal que tocava praticamente apenas Dream Theater, Lorien, de Power Metal, cujas primeiras apresentações foram em festas caseiras na icônica “Festa do Capeta”, de um amigo de banda. “Capeta” era uma bebida popular entre os adolescentes – uma mistura de algum destilado com leite condensado e frutas -, a partir daí a banda criou uma boa base de fãs e muitos vômitos para o dono da casa limpar (tudo pelo Metáu). Também havia a Anticorpus, basicamente cover de Metallica e a banda Oblivion que inicialmente em sua primeira formação era cover de Iron Maiden e mais adiante se tornou uma banda de Power Metal.

SORTILÉGIO. Uma das bandas mais conhecidas e populares da cena Heavy Metal de Rondônia. (Foto: metal-archives.com)
SORTILÉGIO. Uma das bandas mais conhecidas e populares da cena Heavy Metal de Rondônia. (Foto: metal-archives.com)

Houve em 2002 a primeira edição do Madeira Rock Festival (teve uma edição piloto no anterior, mas com uma estrutura pequena e com parca divulgação). Foram dois dias num espaço para aproximadamente 5 mil pessoas no antigo estacionamento do Bingol Club (Avenida Jorge Teixeira com Abunã), mas ainda sem dar espaço para bandas exclusivamente de Heavy Metal, pois contavam apenas com as figurinhas carimbadas do Território do Rock e Urublues.

No ano de 2002 é importante registrar a apresentação histórica da banda Eterna, grupo paulistano de ascensão nacional, que tocava um heavy/power com bastante virtuosismo e estava divulgando o álbum “The Gate”. O show ocorreu no clube AEC (Avenida Tirandentes esquina com Rio Madeira), contou com a participação de bandas de outras vertentes do rock, bem como a Dream Healer e Silver Cry de Rio Branco, além de um grande número de expectadores, provando mais uma vez o ascendente público do Metal na cidade.

Com a notória ascensão de bandas novas e o surgimento de um novo público, graças ao grande apoio da loja de discos Discolândia, que notando os pedidos dos adolescentes, “bancou” a distribuição do catálogo de muitas gravadoras especializadas em Heavy Metal, tais como Roadrunner Records (Sepultura, King Diamond, Mercyful Fate), Nuclear Blast (Hammerfall, Blind Guardian, Kreator, Helloween etc), Paradoxx (Angra), entre outros. Devido a inexistência da internet banda larga na cidade, não era possível baixar a discografia de bandas apenas com os cliques como nos dias de hoje, então era um árduo trabalho fazer a garimpagem de bandas e conhecê-las, o que possibilitava assimilar melhor por ser um processo mais lento.

Galera da AWAKE, uma das primeiras bandas a tocar Progressive Metal no Estado. (Foto: CogumeloNuclear)
Galera da AWAKE, uma das primeiras bandas a tocar Progressive Metal no Estado. (Foto: CogumeloNuclear)

Então, rolava o seguinte: alguém se dispunha a comprar os discos das bandas, eu me revezava com o Henrique, guitarrista da Hellfire Club e meu vizinho a comprarmos CD’s que o outro não tinha para termos uma coleção mais variada. À partir daí fazíamos cópias em CD’s virgens e ia repassando para a galera escutar, meio parecido do esquema LP e fita K7 no período pré CD. Quando não ocorria dessa forma, baixava os principais hits de várias bandas em arquivos MP3 gastando horas de internet discadas e fazia uma coletânea. Como eu não tinha gravador de CD e não existia entrada USB, a galera ia até lá em casa ouvir as “novidades” que eu tinha baixado.

Outros fatores que colaboraram para a propagação do público e surgimento de bandas de Metal foi a existência da revista Planet Metal, que sempre continha a coletânea com músicas de várias bandas em cada edição. Além dessa revista, tanto a Roadie Crew e Rock Brigade possuíam uma distribuição regular nas principais bancas de revista no centro da cidade desde o início dos anos 2000. Fatores que colaboraram primordialmente para que as informações sobre a cena do Heavy Metal mundial e porque não dizer do Heavy Metal nacional, chegasse até Porto Velho.

Em 2003 algumas das bandas mencionadas trocaram de membros, surgiram bandas novas como a promissora Dogma, que existia desde 2001, mas teve seu repertório exclusivamente voltado ao Heavy Metal após a troca de formação no final de 2002, tendo sua “estréia” no “1º Bistrô Metal” no início de 2003. Com o show filmado e por já possuírem alguma base de fãs, teve casa cheia. Ali executaram a primeira composição deles: “Closer to Death”, um metal tradicional com muita influência de Iron Maiden e Viper.

Diante do crescimento do número de bandas, estava claro que havia surgido um novo público na cidade ávido para assistir bandas, a maioria na faixa entre 14-20 anos. Atento a essa demanda, o #Metal_RO e diante do marasmo das festas apenas concentradas na Oficina do Rock ou na casa de alguém, decidimos organizar o primeiro evento chamado “#METAL_RO FEST” no segundo semestre de 2003.

DOGMA no Madeira Festival 2003. (Foto: fotolog.com/dogma)
DOGMA no Madeira Festival 2003. (Foto: fotolog.com/dogma)

Os “operadores” do canal (que tinham acesso a moderação e dar “kicks” nos usuários mais teimosos) se tornaram membros efetivos de um novo coletivo surgindo para dar suporte à cena na cidade.

O evento não foi fácil de organizar, pois, além de sermos inexperientes no assunto, ficou decidido que seria em lugar diferente da Oficina do Rock, contendo metodologia própria para a organização, com a maior divulgação possível, com vendas antecipadas de ingressos na Discolândia e um cartaz bem tosco em folha A4 impresso exposto na loja. Além disso, conseguimos a vinheta em uma rádio à partir de um patrocínio que não faço a menor ideia de onde veio.

Foi escolhido um bar chamado “A Pororoca” (Avenida Guanabara, em frente ao grupo Takeda), pois possuía um palco, uma estrutura de som mínima, além disso era fechado em suas laterais, mas não havia retorno para os músicos do palco, o que prejudicou a vida dos mesmos. Evidentemente que para um evento com orçamento zero não havia muito o que ser feito.

Mandamos confeccionar as camisetas com a arte do cartaz impressa e com o nickname dos operadores do canal nas costas, já que não éramos conhecidos pelos nossos nomes, para facilitar o reconhecimento dos membros do canal. E assim atender ou tirar dúvidas do público durante o evento. Disponibilizamos um projetor para passar os clipes de bandas na parede enquanto não começava o evento. Haviam seguranças na entrada, bilheteria, com um grau de profissionalismo alto para o que ocorria na cena da cidade na época.

Bandas do Acre, como a SILVER CRY, se tornaram parceiras e muito ativas nos eventos em Rondônia. (Foto: FelizMetal)
Bandas do Acre, como a SILVER CRY, se tornaram parceiras e muito ativas nos eventos em Rondônia. (Foto: FelizMetal)

No entanto, havia uma expectativa grande, principalmente por não termos capital de giro nenhum para bancar o evento, então caso o público não comparecesse, teríamos um grande prejuízo, já que estávamos na faixa entre 17-19 anos e ninguém sequer tinha emprego.

Superando todas as nossas expectativas houve mais de 200 ingressos vendidos, o que foi o suficiente para cobrir os gastos e fazer um pequeno caixa, que não era muita coisa.

Mas o mais importante foi a repercussão do evento, pois desde o início foi criado um padrão de qualidade “METAL RO”, que foi bastante elogiado por muita gente, pena que a cobertura por qualquer imprensa à época foi ZERO.

Em 2003 teve a segunda edição do Madeira Rock Festival, também no Bingol Club, mas houve uma seleção prévia através da gravação do material da banda em CD e entregue à “Comissão de Seleção do Festival”. O Metal foi representado pela banda Lorien, com apenas 20 minutos para se apresentar e a Dogma, que teve um horário melhor e mais tempo para tocar. Além de ter sido um grande show, com grande participação do público presente, foi um tapa na cara da organização que torcia o nariz para o Metal alegando que tinha pouco público.

Assim, nesses anos houve a emancipação da Oficina do Rock que segurava a bandeira do Metal em Porto Velho na raça, passou a ter uma crescente no público e na qualidade de bandas e o METAL RO fez parte dessa história.

Clique aqui para ler a segunda parte dessa série: 2004-2008 – A Era Dos Festivais.

8 comentários

  1. MH entertainment

    Gratos, pela menção da banda Awake, que se orgulha de ter feito parte da história do metal em Rondônia. Os membros da banda, Esmael, Robson e Douglas continuam juntos e na ativa, agora em Curitiba, Paraná. Fazendo muito prog metal e se dedicando as musicas autorais, agora com o nome de Mystic Horizon. Convidamos todos a conhecer e acompanhar de perto tudo que rola com a Mystic Horizon, curtin a pagina da banda no Facebook >>> https://www.facebook.com/bandamystichorizon/

    Mystic Horizon channel >> https://www.youtube.com/watch?v=8X3Ku9wkhRU

    • A Awake foi uma das minhas bandas preferidas da cidade em seu período de atividade aqui em Porto Velho, possuo uma grande estima pelos irmãos Esmael e Robinho pelos anos dividindo palco, local de ensaio e toda a ajuda que recebi deles para com a banda que toquei. Desejo toda a sorte nessa jornada em uma cena muito mais competitiva e concorrida, mas são muitos competentes para obterem sucesso.

      Estou no aguardo do lançamento do disco que estão gravando e acompanho pelas mídias sociais tods os passos e em breve agendaremos uma entrevista, se toparem, é claro.

      Abraços.

      • MH entertainment

        Com certeza que topam sim, e terão satisfação em fazer essa entrevista. Assim que o EP “Endless Nightmare” estiver saindo do forno, enviaremos uma cópia para apreciação. Abraço!

  2. Muito bacana esse relato, Othon. É interessante ler sobre uma cena da qual fiz parte sob outra perspectiva. Estes dias mesmo estava revendo as fotos das Festas do Capeta, do Madeira e de uma festa do Metal-RO realizada na casa do Hugo (na qual tocaram a Lorien, Anticorpus e Dogma). Tu inclusive apareces em algumas fotos. Independente das diferenças que tenham surgido tempos depois – e é natural, afinal, não se agrada sempre -, foi muito importante ter vivenciado alguns fatos da cena metal em Porto Velho. Hoje pesquisando a cena de Cuiabá para minha tese, vejo que ter tocado em Porto Velho e ter lido o que escreveste me dá outra visão do que seja uma “cena” – sem o academicismo que tenho de lidar para finalizar o doutorado. Enfim. Parabéns pelo texto. Grande abraço.

    • Muito obrigado pelos comentários Iuri, as diferenças é um processo natural em mundo de pluralidade de ideias, seja quais elas foram, do contrário disso não viveríamos em uma sociedade democrática em que luto para o seu desenvolvimento. Poderia me enviar as fotos da Lorien por email? Como não as tenho, não tive a oportunidade de inserir no texto, mas podemos editar e atualizar sem problemas.

      Um grande abraço e boa sorte com sua tese de doutorado.

      e-mail: othon.pantoja@gmail.com

  3. Iuri Barbosa Gomes

    Vou digitalizar algumas fotos e te envio, Othon. Abraço!

  4. Excelente iniciativa. Fazia tempo que não ouvia o termo “operador de canal”, rolou até uma nostalgia! Bom o seu texto, me amarrei na analogia com a NWOBHM. Considero valioso reunir a memória desse período, deixá-la registrada de maneira pública. Estou começando uma iniciativa semelhante, sobre minha experiência na cena rock em Porto Velho no período 2000-2009.

    Acredito que reunir fotografias, vídeos e outras memorabilias e considerar a feitura, a médio prazo, de um documentário, seria uma iniciativa legal para reunir essa memória do metal em PVH.

    Sucesso ao MetalRO!

  5. Obrigado pelo reconhecimento, realmente é importante registrar e por mais que eu tenha uma boa memória, ela vai ficando cada vez mais distante e sujeitas a falhas e distorções.

    Um documentário seria ótimo! Pena que disponho de um tempo muito exíguo para colaborar com mais,

    Abraços!

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